Uma série de ensaios visuais coletivos, sem ordem pré-definida, dedicada à reutilização de componentes de construção recuperados. Esta prática é tão antiga quanto a própria construção, mas é frequentemente preterida em favor da aplicação contínua de produtos novos, alimentada por um sistema produtivo assente na velocidade e na obsolescência.
Em cada ensaio partimos da observação de momentos intermédios na vida de componentes — usos entre a produção e o descarte final — em busca das qualidades que determinam cada reutilização. Evidenciamos a materialidade da reutilização: a riqueza dos detalhes, a estética, as texturas, as formas, as mudanças de função, as marcas de uso ou desgaste. Estas qualidades revelam vidas anteriores, histórias invisíveis, significados ocultos e os valores e as emoções dos quais resultam culturas de reutilização distintas. Formais e informais, estas culturas emergem de processos profundamente ligados às pessoas, às suas ações e aos contextos sociais, económicos e políticos.
Apontamos especificidades dos métodos de construção que frequentemente não são pré-concebidos nem guiados por procedimentos standardizados. Sem restrições dogmáticas, aceitamos a diluição das fronteiras temáticas e a desconstrução de preconceitos, inconscientemente, presentes no início de cada pesquisa.
Numa relação de interdependência, o discurso visual e os apontamentos escritos proporcionam leituras críticas de vários universos de reutilização. Ao recriar interligações com o que construímos e reconstruímos — na arquitetura, na cenografia, na escultura e noutras áreas do mundo material quotidiano — cada publicação desafia o léxico do próprio leitor.
Também transferimos o tema da reutilização para a forma física de cada INTERMÉDIO, através do design gráfico, da impressão em papel descartado pela gráfica e da encadernação reversível, estabelecendo coerência entre conteúdo e materialização. O formato impresso, que implica a síntese e a organização sequencial das ideias, constitui uma versão simplificada da riqueza de temas e da complexidade de ligações que emergem durante o processo de pesquisa e edição. A ordem pela qual organizamos os conteúdos em cada ensaio reflete uma intenção, moldada pela perspetiva do momento em que é produzida.
Sem introdução e sem conclusão, cada ensaio é um momento intermédio na nossa pesquisa contínua sobre reutilização. Outras perspectivas e temas permanecem por explorar.
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
Mário de Sá-Carneiro
Poema 7 em Indícios do Ouro, 1914
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(...) Vejo-os antes como se pertencessem a um escalão intermédio, diferentemente livres, em relação ao qual não fizesse sentido falar nem da lógica da personagem nem da necessidade contingente da pessoa, Se não pode dizer-me quem são, diga-me ao menos o que fazem. (...)
José Saramago História do Cerco de Lisboa, 1989
Títulos:
PRÁTICAS (2025)
As práticas de reutilização, inerentemente ligadas à própria construção, têm persistido com resiliência através de várias expressões: culturais, estéticas, económicas, tecnológicas, sociais ou políticas.
Este ensaio coloca lado a lado exemplos de reutilização fundamentados no valor histórico-patrimonial, na cultura vernacular ou na utilização informal de oportunidade, concebidos em métodos formais de projeto arquitectónico ou autoconstruídos. Todos estes casos têm origem exclusivamente em Portugal, procurando evidenciar diversidade em abordagens locais.
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PORTAS (2025) As portas, originalmente concebidas para estabelecer fronteiras ou passagens, são um dos elementos arquitectónicos no mundo da construção com maior frequência e variedade de reutilização.
Este ensaio, intencionalmente circunscrito ao território português, percorre alguns exemplos destas culturas de reutilização de portas, para tornar visíveis as histórias das vidas anteriores e das novas aplicações.
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